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A profecia de Joseph Ratzinger

“Igreja não procura tornar-se atraente, mas deve ser transparente para Jesus Cristo”, respondeu Bento XVI a um jornalista que questionava a crise na Igreja Católica.

A renúncia do Papa Bento XVI suscitou na mídia e em boa parte dos fiéis especulações acerca de profecias apocalípticas sobre o futuro da Igreja. Dentre elas, a que mais chamou a atenção foi a famosa “Profecia de São Malaquias” que, segundo a lenda, anunciava o fim da Igreja e do mundo ainda neste século [1]. Apesar dessas previsões catastróficas alimentarem a imaginação de inúmeras pessoas, a verdade é que elas carecem de fundamento e lógica, como já demonstraram vários teólogos, inclusive o estimado monge beneditino Dom Estevão Bettencourt, na sua revista “Pergunte e Responderemos” [2].

Mas não é sobre a profecia de São Malaquias que queremos falar aqui. Nossa atenção, devido às circunstâncias, volta-se para as palavras do jovem teólogo da Baviera, Padre Joseph Ratzinger, proferidas há pouco mais de 40 anos, logo após o término do Concílio Vaticano II. Em um contexto de crise de fé e revolução cultural, o então professor de teologia da Universidade de Tübingen via-se cada vez mais sozinho diante da postura marcadamente liberal de seus colegas teólogos, como por exemplo, Küng, Schillebeeckx e Rahner. Olhando também para os outros setores da Igreja, Padre Ratzinger via nos “sinais dos tempos” um presságio do processo de simplificação que o catolicismo teria de enfrentar nos anos seguintes.

Uma Igreja pequena, forçada a abandonar importantes lugares de culto e com menos influência na política. Esse era o perfil que a Igreja Católica viria a ter nos próximos anos, segundo Ratzinger. O futuro papa estava convencido de que a fé católica iria passar por um período similar ao do Iluminismo e da Revolução Francesa, época marcada por constantes martírios de cristãos e perseguições a padres e bispos, que culminaram na prisão de Pio VI e sua morte no cárcere em 1799. A Igreja estava lutando contra uma força, cujo principal objetivo era aniquilá-la definitivamente, confiscando suas propriedades e dissolvendo ordens religiosas.

Apesar da aparente visão pessimista, o jovem Joseph Ratzinger também apresentava um balanço positivo da crise. O teólogo alemão afirmava que desse período resultaria uma Igreja mais simples e mais espiritual, na qual as pessoas poderiam encontrar respostas em meio ao caos de uma humanidade corrompida e sem Deus. Esses apontamentos de Ratzinger foram proferidos em uma série de cinco homilias radiofônicas, em 1969, as quais, anos mais tarde, tornaram-se livro sob o título de “Fé e Futuro” [3].

A Igreja diminuirá de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá extraído uma grande força do processo de simplificação que atravessou, da capacidade renovada de olhar para dentro de si. Porque os habitantes de um mundo rigorosamente planificado se sentirão indizivelmente sós. E descobrirão, então, a pequena comunidade de fiéis como algo completamente novo. Como uma esperança que lhes cabe, como uma resposta que sempre procuraram secretamente.

Depois de 40 anos desses pronunciamentos, o já então papa Bento XVI não mudou de opinião. É o que se pode concluir lendo um de seus discursos feitos para os trabalhadores católicos em Freiburg, durante viagem apostólica à Alemanha, em 2011 [4]. Citando Madre Teresa de Calcutá, o Santo Padre constatava uma considerável “diminuição da prática religiosa” e “afastamento duma parte notável de batizados da vida da Igreja” nas últimas décadas. O Santo Padre se perguntava: “Porventura não deverá a Igreja mudar? Não deverá ela, nos seus serviços e nas suas estruturas, adaptar-se ao tempo presente, para chegar às pessoas de hoje que vivem em estado de busca e na dúvida?”

Sim, respondia, a Igreja deveria mudar, mas essa mudança deveria partir do próprio eu. “Uma vez alguém instou a beata Madre Teresa a dizer qual seria, segundo ela, a primeira coisa a mudar na Igreja. A sua resposta foi: tu e eu!”, ensinou. Bento XVI pedia no discurso uma reforma da Igreja que se baseasse na “desmundanização”, corroborando o que explicou em outra ocasião a um jornalista, durante viagem ao Reino Unido, sobre como a Igreja deveria fazer para agradar ao homem moderno [5].

Diria que uma Igreja que procura sobretudo ser atraente já estaria num caminho errado, porque a Igreja não trabalha para si, não trabalha para aumentar os próprios números e, assim, o próprio poder. A Igreja está a serviço de um Outro: não serve a si mesma, para ser um corpo forte, mas serve para tornar acessível o anúncio de Jesus Cristo, as grandes verdades e as grandes forças de amor, de reconciliação que apareceu nesta figura e que provém sempre da presença de Jesus Cristo. Neste sentido a Igreja não procura tornar-se atraente, mas deve ser transparente para Jesus Cristo e, na medida em que não é para si mesma, como corpo forte, poderosa no mundo, que pretende ter poder, mas faz-se simplesmente voz de um Outro, torna-se realmente transparência para a grande figura de Cristo e para as grandes verdades que ele trouxe à humanidade.

Esses textos ajudam-nos a entender os recentes fatos e a interpretar os pedidos de reforma da Igreja feitos por Bento XVI, nos seus discursos pós-renúncia. De maneira alguma esses pedidos fazem referência a uma abertura da Igreja para exigências ideológicas do mundo moderno, como quiseram sugerir alguns jornalistas. Ao contrário, o Papa fala de uma purificação da ação pastoral da Igreja diante do homem moderno, de forma que ela se livre dos ranços apregoados pelo modernismo. Trata-se de conservar a fiel doutrina de Cristo e apresentá-la de modo transparente e sem descontos. A Igreja enquanto tal é santa e imaculada. Mas seus membros carecem de uma constante conversão e é neste sentido que a reforma deve seguir. A Igreja precisa estar segura de sua própria identidade, a qual está inserida na sua longa tradição de dois mil anos. Caso contrário, toda reforma não passará de uma reforma inútil.

sources: Equipe Christo Nihil Praeponere | Informações: Vatican Insider

Paz e bem!

O que é a fé em nossa caminhada?

 

A fé é luz. Deus chega ao coração do ser humano para levar luz.

Eu sou a luz, e vim ao mundo para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas – João 12, 46.

A Revelação busca o homem em seu próprio ambiente, acompanha-o nas profundezas do seu interior, que muitas vezes ele sela por temor de ser vulnerável. Deus quis assumir a vida humana para fazer o homem sentir sua proximidade.
O Verbo se fez carne, sujou-se, tocou todas as situações que o ser humano vive, recordando-lhe que a natureza humana não pode prescindir de amar e confiar.  Amar, de fato, significa confiar, porque a vida é um contínuo ato de fé. Um bebê, quando nasce, não pode fazer nada, a não ser confiar em seus pais.
Aquele que crê, ao aceitar o dom da fé, reveste-se de uma luz nova, é transformado em uma nova criatura, torna-se filho no Filho.
A fé, no entanto, não é um troféu ou um ponto de chegada, mas sim um ponto de partida. Desde o momento em que acolhe o dom da fé, o cristão começa um caminho completamente novo, cheio de surpresas, no qual não faltam as dificuldades.

A verdadeira relação que o homem estabelece com Deus precisa de um dinamismo, de um contínuo conhecimento, de uma contínua descoberta, de um constante confiar e abandonar-se, um contínuo “êxodo”: uma aventura compartilhada na qual Deus age com o homem e no homem.

Para nutrir e reforçar esta fé, é necessário manter o coração “vulnerável” ao amor de Deus, não deixar de nutrir-se da Palavra de Deus, dos sacramentos, da oração individual e comunitária, para um crescimento que leva à santidade da vida, a um amor que não é somente vertical, mas horizontal, ou seja, capaz de abraçar toda a humanidade.
A fé é uma graça. Quando Pedro confessa que Jesus é “o Cristo, o Filho de Deus vivo”, Jesus lhe diz: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus” (Mateus 16,17).

A fé é um ato humano: “Não é contrário nem à liberdade nem à inteligência do homem depositar a confiança em Deus e aderir às verdades por Ele reveladas” (Catecismo da Igreja Católica, 154). Na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a graça divina.

A fé é confiável, é o mais confiável dos conhecimentos humanos, porque se baseia na Palavra de Deus, que não mente.
“Nunca haverá uma verdadeira divergência entre fé e razão: pois o próprio Deus que revela os mistérios e comunica a fé também depositou no espírito humano a luz da razão. Deus não poderia negar a si mesmo, nem o verdadeiro poderia contradizer o verdadeiro” (Concílio Vaticano I).

A investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cabo de um modo verdadeiramente científico e segundo as normas morais, nunca será realmente oposta à fé, já que as realidades profanas e as da fé têm origem no mesmo Deus” (Gaudium et spes, 36)

A fé é livre. Para ser humana, a resposta da fé do homem a Deus precisa ser voluntária: “Ninguém deve ser forçado a abraçar a fé contra a sua vontade. Porque o ato de fé é voluntário por sua própria natureza” (Dignitatis humanae, 10).

A fé é início da vida eterna. Ela nos permite saborear antecipadamente a alegria e a luz da visão beatífica, final do nosso peregrinar. Então veremos Deus “face a face” (1 Coríntios 13, 12), “tal como Ele é” (1 João 3, 2).

Paz e bem!

sources: Credere